quarta-feira, 27 de março de 2013

O Livro do Cemitério

Em O Mundo de Sofia, o autor Jostein Gaarder toca no assunto de que quando pequenos, os homens tem o pensamento apurado pela curiosidade e imaginação. Provavelmente Neil Gaiman leu algo parecido com isso em algum lugar, e levando em consideração ao que leu, colocou de uma forma brilhante nesse livro que tão pouco falam dele. Muita gente acha o Gaiman um pouco bitolado no quesito universos paralelos e passagens secretas. No quesito criatividade, o autor ficou mais do que famoso por ser assim. O Livro do Cemitério não seria diferente. até porque, mesmo sem precisar sair do nosso mundo, Ninguém Owens conseguiu passar para o outro lado. Brilhantemente ilustrado com seu fiel colaborador, Dave McKean, Gaiman aproveita a parceria e não sente pena das precisas pinceladas do amigo. Presenciar um crime brutal não foi o suficiente para o bebê Ninguém, escapando por sorte e indo parar em um cemitério no final da rua onde sua família morava. O cemitério, por sua vez, já havia outra família lhe acolhendo. Uma bela referência a Mogli, o Menino Lobo, a relação do vivo com o morto faz com que pensamos que quanto mais medo muitas pessoas tem de alguma assombração, o vivo tem mais espaço para colocar suas maldades em práticas. A maldade, por si só, não tem efeito ao morto, obviamente, mas mesmo depois de morto, uma pessoa pode continuar malvada. Conforme Ninguém vai crescendo, cada vez mais ele vai aprendendo sobre essas regras.

Uma pessoa jovem ser criada por fantasmas e almas penadas de fato, é algo inusitado, mas é o charme do terror fantástico que faz o livro ser tão fascinante. O que amedronta, te acolhe. O medo dá lugar ao amor familiar de um lugar inadequado para se viver e criar um filho. A culpa não é do Ninguém, e sim do acaso de um ato de puro descaso com o ser humano. Humanos esses que são menos do que os que não são mais humanos, assim trata-se de Ninguém, mesmo quando ele se acha sujo e solitário o bastante, porque mesmo criado entre quem já se foi, ele ainda está aqui.

Onde está a paixão quando a perspéctica de vida já está morta? Onde está a paz quando a vida foi lhe entregue pela morte do mesmo sangue? Quando se encontra a tão esperada solução ao sufoco de uma vida regada pela morte, é hora de dizer adeus definitivo para quem não pode viver ao lado. As despedidas são péssimas, mesmo sem precisar de um funeral. De toda forma, é redescobrindo a vida que a morte sossega, e seguir em frente é inevitável para quem quer realmente viver.

Autor: Neil Gaiman
Ilustrador: Dave McKean
Tradutor: Ryta Vinagre
Gênero: Literatura Estrangeira/Terror/ Fantasia/Infanto Juvenil
Editora: Rocco/Rocco Jovens Leitores
Nota: 5.0

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